Os adultos sofrem das perguntas que, embora previsíveis, nunca conseguiram responder às crianças. E com todo o tempo da história da Humanidade para articular, não conseguiram respostas satisfatórias. A mais aguda, até hoje forma adultos à deriva: “De onde vem os bebês?”.
Com a inseminação artificial e a clonagem em ascensão, a sabatina ficou mais complexa ainda.
Mas a responsabilidade por essa Ágora falida fica a cargo, unicamente, desse sentimento egoísta que se nutre na vaidade do romantismo. É essa coisa de fantasiar que nos condena. Essa aversão à verdade.
Como uma espécie de vingança inconsciente, esse adulto projeta suas frustrações na criança e lhe devolve, em tempo, uma pergunta diabólica: “O que você vai ser quando crescer?”.
Existe um ciclo de horror que trata os adultos como representantes da resposta, assim como os adultos vão incutindo às crianças perguntas que as torturam em toda sua vida. Não há nada pra ser, nem lugar pra se ir, quando somos crianças. E quem disse que precisamos crescer?
Hoje, ao sair do trabalho, encontrei no caminho um caminhão promocional de uma estação de rádio distribuindo bolas para as crianças na rua. O som alto, além das crianças gritando e correndo atrás do caminhão, arrancaram-me o sorriso difícil para essas ações de marketing, sempre tão imundas.
Entretanto, o mais emocionante foi um garoto sujo e descalço que, rei de suas paragens, estudou o comportamento das meninas lá no alto do caminhão, jogando as bolas para as crianças, e começou a sacá-las antes que quicassem no chão. Então as distribuía para os seus. Fez isso por alguns minutos, depois pegou três bolas e guardou uma embaixo da camiseta, como se imita mulher grávida, enquanto as outras duas iam cada uma embaixo de cada braço; e saiu correndo de bater o calcanhar na bunda.
Só quando ele já tinha ido, uma bola quicou em minha direção e peguei para que não saltasse dentro de casa alheia à brincadeira. Fiquei abobado e esqueci, por alguns segundos, “o que queria ser quando crescesse”.
O que você quer ser quando crescer?
Uma crônica de Alex Pinheiro.