O vagabundo em nós

Eu me incomodo muito com o vagabundo dentro de cada um de nós. Entristeço demais com nossa falta de sensibilidade ao crucificar as falhas alheias em favorecimento de nossa canalhice.
Não dou dinheiro pra ninguém, mas já precisei de R$0,05 para inteirar em uma passagem de volta pra casa, e tinha acabado de sair de um trabalho. Fui negligente e paguei meu preço ligando em casa e pedindo para que alguém fosse me buscar. Mas, em suma, o malandro existe em detrimento de todas as boas pessoas que um dia precisem da Indústria da Caridade.
Aliás, observe que malandro não trabalha na chuva. Num dia de chuva você…
nunca precisará se incomodar com o “guardador de carro” que, curiosamente, cobra para que você estacione em uma via pública. A chuva é inimiga da malandragem, como também é dos manobristas e guardas de trânsito que evitam acidentes quando os semáforos quebram. A mesma dose para os justos e para o vadio oportunista.
A garota foi pra rua protestar, nos últimos dias, contra políticos porcalhões que não respeitam a constituição e exploram a passividade do brasileiro, mas entra no transporte coletivo e não respeita lei municipal que proíbe música no celular. Sabe aquelas pessoas que não usam fones de ouvido e obrigam as outras a ouvirem suas músicas?
É estranho, mas nessa roda viva, pensei, também, que essa garota tem muito da boa experiência humana dedicada a compartilhar. Quanto mais egoísta um indivíduo, menos humano. Assim interpretamos o universo contemporâneo. Tudo pode mudar, mas por enquanto, compartilhar é sinônimo de humanidade. Eu detesto a música que ela ouvia, mas duas poltronas adiante um rapaz balbuciava a letra.